domingo, 13 de novembro de 2016

Aprendiz de jardineiro

Se estamos acostumados a pensar apenas no que os outros podem fazer por nós, experienciar o contrário pode ser uma excelente ideia. Mas de que forma pode-se exercitar a empatia, quando ainda se está tão concentrado em si mesmo?
Em que é possível ajudar, somar, semear, fazer crescer, com as mãos, ouvidos, palavras e pensamentos? Em que a sensibilidade ou o silêncio podem ser úteis?

Muitas pessoas ainda acreditam que ajudar alguém, da forma que for, é investimento para o futuro, para receber retorno quando precisar. Há aqueles que pensam que se dispor a cooperar com o outro é um ato de doação, total ou parcial. E que esperar algo em troca é alimentar expectativas que podem gerar uma futura decepção. Existe os que creem que bom, mesmo, é ajudar quando nada será recebido em troca. Além de um "obrigado", é claro, e uns elogios. Mas tudo espontâneo, hein. Nada obrigatório. E, ainda, há quem queira apenas que o outro alcance o que precisa. Sem expectativas futuras, sem demonstrações de gratidão. Ele se alegra em notar que seu movimento foi efetivo na conquista do outro.

Cada um só poderá avaliar a si mesmo com relação a que intenção e sentimento foi acionado ao colaborar com outra pessoa. Mas, diante da pluralidade das ações e sentimentos, surge a reflexão: O que se pode entender como caridade?




Caridade é amor em movimento. Mais que doar, ela busca doar-se. É resultado de importar-se com alguém além de si mesmo e da decisão de utilizar seus recursos para ajudar aquele com quem se importa. Já se sabe que não se transforma o mundo com um só projeto, com um só grupo. É clichê dizer que é preciso que todos mudem para que essa transformação de concretize. Clichê, mas verdadeiro. Nesse vai e vem de transferências de responsabilidade, há um projeto que ninguém além de cada um nós pode implementar: o da autotransformação; buscando sermos mais humanos, éticos, mais preocupados com outros e mais empáticos aos desafios, dores e dificuldades daqueles que conosco cruzam a caminhada, nesse mundão de desigualdades de todos os tipos. Um segundo projeto com o qual podemos colaborar, tão importante quanto o primeiro, é o da caridade. E ele traz consequências profundas.

Quando nos propomos a ajudar alguém, passamos a fazer parte de uma rede gigantesca de pessoas que se importam

  • No ato de ouvir o idoso que sentou ao seu lado no ônibus, e que deseja falar sobre a sua vida e, muitas vezes, nem tem com quem; 
  • na disposição de mobilizar amigos e familiares para arrecadar recursos e doar a uma instituição filantrópica ou a uma família que esteja necessitando de ajuda; 
  • ao perceber um olhar diferente de um companheiro de trabalho, faculdade ou qualquer outro lugar que se frequente, e, sem invadir sua vida, demonstrar que se importa e que está disponível para conversar sobre o que for; 
  • ao oferecer o assento em que está sentado, no transporte público, para alguém que esteja precisando;
  • ao abraçar um amigo que passa por um momento de dor;
  • entre muuuuuuuuuuitas outras ações.
Parece, a partir de óculos pré-ajustados, que o mundo, o país e a sociedade estão caóticos, que o mal vem ganhando espaço e que os homens e mulheres de bem vem sendo afetados em seus direitos, em seu bem-estar. Mas se a gente souber afinar o nosso olhar e ajustar os óculos, iremos notar: podemos, cada um de nós, distribuir o que o outro precisa. A oportunidade, o ensinamento, a necessidade imediata, o apoio emocional. E, além de regar a sementeira da vida com a água do amor, estaremos nutrindo, também, em nós, essa semente de bondade, de amor ao próximo e de esperança. Basta, apenas, acreditar que se é um aprendiz a jardineiro e estar disposto a realizar o seu ofício.




segunda-feira, 7 de novembro de 2016

Eu posso

"Já tá ficando escuro, meu amor
Melhor sair daqui enquanto é tempo
Os dias andam estranhos, eu te entendo
Também queria um pouco de calor"
Leoni

O momento que os brasileiros e brasileiras vivem é, no mínimo, esquisito. Um vírus de desesperança, desespero, revolta e irritação que consome boa parte da população é contagioso e transmitimos entre nós, que se multiplica quando atinge o interior de nossas células. Talvez digamos: "não sei lidar". Talvez pensemos: "Não há o que fazer". Eu digo, porém: Não há no mundo quem possa mudar as coisas se não cada um de nós. Eu, aquela que escreve, poderei revogar leis e medidas provisórias aprovadas? Não. Poderei impedir os cortes na verba destina à educação, saúde, esporte e cultura? Não. Mas eu, você, e todos nós juntos podemos fazer o que o governo, nesse momento, não consegue: olhar dentro dos olhos/ler a história/ouvir o relato dos outros e se importar. Nós podemos nos importar.
Não convoco ninguém, aqui, a levantar uma guerra àquele que não tem empatia. Quiçá pra transformar esse "importar-se" em resultado de uma mescla de revolta contra quem não olha pelos nossos direitos e ira diante de quem ainda concorda. Eu não convoco ninguém, repito, ninguém, a fazer nada; apenas convido. Mas convoco a mim mesma a pôr mais afeto nas minhas palavras e nas minhas ações. A ter mais disponibilidade pra ajudar o outro. A ser refúgio para mim mesma de bons sentimentos e perspectivas, pra que com elas eu possa ser útil em ajudar a colorir os óculos preto e branco de quem foi pego pelo vírus. Eu convoco a mim mesma a me vacinar com esperança inesgotável e oferecer paciência e gotas de ânimo a quem foi infectado. 

Se existe a ausência daquele que, na nação, deveria zelar por nós, pelo nosso acesso aos direitos básicos para nossa sobrevivência e bem-estar, zelemos uns pelos outros! Aos cristãos: sejamos "o próximo" uns dos outros! Seja qual for a nossa religião dentro do cristianismo. Aos ateus e agnósticos: sejamos úteis uns aos outros! Formemos uma grande comunidade solidária! Quantos talvez não precisem daquilo que temos em abundância, como comida, roupas, cobertores, oportunidades, instrução, atenção? Quantos talvez não tenham pra dar aquilo de que precisamos?

"Seremos, no amanhã, uma grande família
Com certeza nossas vozes vencerão em coro
Todo o mal"
Ariovaldo Filho

Não é preciso que compartilhemos da mesma filosofia, religião, opinião. Mas se a gente souber se importar do jeito certo, sem julgar, sem acusar, mas compreendendo e respeitando quem o outro é, essa comunidade irá crescer e florescer como a maior e mais belo coletivo que o mundo já viu: o coletivo da solidariedade, do bem, e do amor.