segunda-feira, 8 de agosto de 2016

Do ócio à utilidade

Sentados em frente à TV, tomando um iogurte grego, descansando de um dia corrido, entre outros momentos, a Preguiça entra pelo cômodo e senta ao nosso lado. Inicialmente, diz estar apenas acompanhando um momento de relaxamento. Nada demais, só quer assistir a série que você gosta, experimentar seu sabor preferido de iogurte ou ler junto com com você as postagens naquele grupo sobre cabelo. Você não percebe, porém, que as visitas inocentes vão se tornando cada vez mais frequentes e pouco tempo depois ela já abre a porta da geladeira, põe os pés em cima do sofá e pergunta o que tem pra jantar.
Sem perceber, ela ficou íntima do seu ser. É como dizem: "Dá dinheiro, mas não dá intimidade". O que fazer, então, pra reverter o processo?
Já há algum tempo, um amigo me deu um conselho, me alertando contra a preguiça:
Se você andar muito com ela, vai se viciar em fazer nada, toma cuidado. No começo será só fisicamente, mas depois até a mente vai parando. Não é culpa dela, você tem discernimento pra escolher. Te alerto, apenas, para que não seja pega desprevenida. Resista...

Respondi, perplexa:
— Nossa, Trabalho, que exagero... depois de encerrar um período turbulento na faculdade eu mereço descanso... De forma moderada não terá problema. Certo?
Claro. O descanso é muito justo. Mas a ociosidade faz um tremendo mal aos desavisados...
— Fique tranquilo. Ficarei bem. Mas obrigada pelo alerta.

Ele estava certo. Pouco a pouco uma vontade de fazer nada me tomou. Porém, o mais estranho, é que ela me incomoda. Ou seja, não gosto de não fazer nada, sinto-me inútil, mas não tenho vontade de fazer coisa alguma. Paradoxal sim ou claro?

Sendo assim, essa curta amizade precisa de limites. A Preguiça não é o problema, por si só. Ela existe, ponto. Eu é que não soube agir bem diante da sua influência. Não soube resistir às nossas afinidades, como aquela pessoa que se sente inclinada a comer demais, passa mal ao fazê-lo e, mesmo assim, se sente tentado a fazê-lo quando encontra a Gula.

Tendo aceitado, agora, que ela existe e que não pude resistir às suas influências, chega o momento, então de reagir! Que antídotos terei eu a meu favor? Quais serão as receitas de bolo que os bons amigos poderão me indicar? Lembrei-me, então, de Trabalho. Fui correndo pedir ajuda a ele, que me convidou a acompanhá-lo. Estive livre para planejar e executar atividades e ainda que a Preguiça tenha me ligado, eu avisei que estava ocupada. Não havia mais tempo a perder fazendo nada; nada no corpo, pouco na mente, bem pouco na vida. Isso não é vida. Até quando o corpo está inerte e a mente comprometida, pode ainda haver pensamento correndo, saltitando, passeando pela mente de alguém. Que amizade era essa, afinal, que me impelia a abrir mão disso? De pensar e agir e, consequentemente, sentir-me bem comigo mesma. Preferi ficar com meu amigo Trabalho.
Achei que o dia seria pesado, cansativo, porém ativo. Arregacei as mangas e me preparei pra um dia difícil. Enganei-me. Disse ele que o líder da obra, na qual fui convidada a colaborar, não exige de ninguém aquilo que a pessoa não pode oferecer. Nenhuma tarefa que chega é mais pesada do que cada um pode suportar. Eu não podia receber notícia melhor! Sentia-me bem, sentia-me útil e o dia rendeu como nenhum outro! Porque além dos braços estarem à postos em tarefas necessárias para mim e para outros, a minha mente estava mais tranquila. Hoje eu pude dizer que cumpri com a tarefa do dia: ser útil em qualquer nível, de qualquer maneira, de boa vontade. E isso, querido leitor, é um exercício a ser renovado dia após dia.

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